Segurança psicológica se constrói em relação
- Douglas Alves
- 3 de fev.
- 3 min de leitura
No último sábado, estive em São Paulo participando da 17ª Jornada de Psicodrama Organizacional, promovida pela Potenciar. Foi um encontro dedicado à construção de ambientes com segurança psicológica — mas, mais do que isso, foi uma experiência viva sobre como grupos se formam, se sustentam e produzem trabalho com sentido.
Desde a abertura, algo ficou muito claro para mim:
“Grupos precisam de aquecimento. Antes de qualquer conteúdo, existe gente.”
No Psicodrama, o aquecimento não é um detalhe metodológico. Ele prepara o campo relacional para que o encontro aconteça de verdade. Nomear, escolher como se quer ser chamado, reconhecer os papéis que entram em cena — tudo isso organiza o grupo e cria as condições para que o trabalho possa existir.
Antes de falar de liderança ou organização, estávamos falando de gente.
Na sequência, o conceito de segurança psicológica foi aprofundado de forma muito concreta:
“Segurança psicológica é a percepção de que o ambiente permite falar, errar, perguntar, discordar e se expor sem medo de punição ou retaliação.”
O que ficou evidente é que segurança psicológica não se sustenta em discurso. Ela aparece no cuidado com o ambiente relacional, no ritmo do grupo e na forma como as pessoas são recebidas. Sem isso, não há participação real — apenas adaptação.
Quando o tema da liderança entrou em cena, a experiência ganhou ainda mais densidade. Ao colocar diferentes papéis em jogo, ficou claro que liderar não é oferecer respostas prontas nem exercer controle, mas sustentar um campo relacional aberto, com responsabilidade compartilhada.
“Segurança psicológica envolve permissão para errar, liberdade de voz, pertencimento e cuidado relacional — e se perde facilmente em ambientes marcados por ironia, silêncio ou sarcasmo.”
A liderança que sustenta segurança psicológica é aquela que pede ajuda, reconhece limites e constrói junto. Não é ausência de direção, é corresponsabilidade.
Outro momento marcante da jornada trouxe o corpo para o centro da experiência. Através de práticas de presença e respiração, ficou evidente que toda relação começa no eu.
“Quanto mais equilíbrio interno, menos riscos relacionais aparecem.”
A escuta, o cuidado e o acolhimento do outro não acontecem sem presença. O Psicodrama apareceu ali como um método profundamente democrático: cria espaço para que cada pessoa exista, participe e ajude o outro a crescer — inclusive o líder. Presença, aqui, é responsabilidade compartilhada em ação.
Mais adiante, o sensemaking foi apresentado como um processo coletivo de construção de sentido. Organizações são feitas de narrativas, tensões e escolhas contínuas. Criar sentido não é eliminar diferenças, mas escutá-las.
“O sentido não está em ações pontuais, mas na memória relacional que se constrói no grupo.”
Segurança psicológica não apareceu como um objetivo isolado, mas como um eixo estruturante. É a partir dela que se ampliam a inovação, se reduzem os movimentos de saída, melhora o desempenho e diminuem o estresse e o burnout. O que sustenta essas condições é a memória relacional feita de gestos, escuta e reconhecimento.
No momento de compartilhamento, fomos convidados a perceber com quais emoções estávamos saindo daquele encontro. A alegria apareceu como o sentimento mais presente — o que faz muito sentido quando falamos de Psicodrama.
Como nos lembra Jacob Levy Moreno, “a alegria nasce do encontro: do vínculo, da presença e da vida em grupo”.
Eu saí com alegria também, mas junto dela veio uma ansiedade boa. Uma ansiedade de movimento. De aplicar o que foi vivido, de aprofundar o estudo, de seguir construindo esse caminho como psicodramatista.
“Um desejo de reconhecimento, sim, mas como responsabilidade com o método e com as pessoas.”
O que ficou muito claro para mim é que essa trajetória não se constrói apenas a partir de cargos, títulos ou do lugar do empreendedor. Ela se constrói nos vínculos. E vínculos só se sustentam quando há segurança psicológica.
“É isso que permite continuar, experimentar, errar, aprender e seguir em relação.”
Saio desse encontro com a certeza de que segurança psicológica não é um conceito abstrato. Ela se constrói no corpo, na escuta e nos vínculos. É no grupo — quando há presença, responsabilidade e cuidado — que o trabalho ganha sentido e as pessoas encontram espaço para existir.

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